A conservação do cerrado da UFSCar reveste-se da maior importância quando atentamos para alguns atributos desta vegetação no estado de São Paulo. Embora originalmente o cerrado ocorresse distribuído por 14% da área do estado, restam apenas 1% a 2% da vegetação original remanescente. Isso corresponde a 238.400 ha cobertos por diferentes fisionomias de cerrado distribuídos em nada menos que 8.353 fragmentos desta vegetação. Como resultado, as áreas remansecentes são predominantemente pequenas: mais da metade destes fragmentos possui até 10 hectares. Estas áreas, cuja esmagadora maioria é composta por propriedades privadas, está sujeita a vários tipos de interferência humana, seja por pastoreio por gado, extrativismo de madeira, produtos naturais, invasões por espécies exóticas, etc. Tais áreas podem ser insuficientes para garantir a conservação da biodiversidade local de animais e plantas a longo prazo, por não conterem a área ou recursos suficientes para manutenção de uma população mínima viável. A área de cerrado remanescente na UFSCar certamente merece atenção neste sentido, por conter uma área de cerrado maior do que boa parte dos remanescentes do estado de São Paulo. No entanto, dado os padrões de distribuição de várias espécies do cerrado, mesmo fragmentos pequenos interessam para conservação. Por exemplo, um estudo recente indicou que das 914 espécies de árvores e arbustos encontrados em 315 áreas de cerrado, apenas 300 espécies ocorriam em oito ou mais áreas e 614 espécies eram encontradas em apenas uma área de estudo (Ratter et al. 2003). Assim, eliminar áreas de cerrado, ainda que aparentemente pequenas, implica na total eliminação da área de ocorrência de populações inteiras e provavelmente de espécies de plantas. Vale lembrar que os cerrados do estado de São Paulo, do qual a área contida no campus da UFSCar é parte, possui um padrão de riqueza de espécies de plantas distinto ds encontrado no restante da área de distribuição do cerrado. Estas evidências indicam o caráter singular destas vegetações, não encontrados nas demais áreas de ocorrência de cerrado no restante do Brasil.

Com relação a avifauna, várias espécies endêmicas do cerrado (só encontradas neste bioma) de interesse para conservação em nível estadual e nacional são encontradas no cerrado da UFSCar, entre elas o o mocho-diabo Asio stygius, o bico-de-pimenta Saltator atricollis, a andorinha-morena Alopochelidon fucata, a gralha-do-campo Cyanocorax cristatellus e o soldadinho Antilophia galeata. A remoção de parte da vegetação do cerrado certamente irá afetar populações destas espécies ameaçadas no país ou no estado, e de outras espécies que utilizam o fragmento de cerrado do câmpus da UFSCar, que conta com mais de cento e vinte espécies de aves registradas.

Para saber mais sobre estes assuntos:

Cavalcanti, RB & Joly CA 2002. Biodiversity and conservation priorities in the Cerrado region. Pp. 351-367. In: Oliveira PS & Marquis RJ (eds). The cerrados of Brazil: the ecology and natural history of a neotropical savanna. Columbia University Press, New York.
Durigan, G, Ratter, Ja, Bridgewater, S, Siqueira Mf & Franco, Gadc. 2003. Padrões fitogeográficos do cerrado paulista sob uma perspectiva regional. Hoehnea 30: 39-51.
Klink, CA & Machado, RB. 2005. Conservation of the Brazilian cerrado. Conservation Biology 19: 707-713.
Marini, MA & Garcia, FI. 2005. Bird conservation in Brazil. Conservation Biology 19: 665-671.
Motta-Júnior, JC & Vasconcellos, LAS 1996. Levantamento de aves do campus da Universidade Federal de São Carlos, estado de São Paulo, Brasil. Anais do Seminário Regional de Ecologia 7: 159-171.
Motta-Júnior, JC. 2006. Relações tróficas entre cinco Strigiformes simpátricas na região central do estado de São Paulo. Revista Brasileira de Ornitologia 14: 359-377.
Ratter J, Bridgewater S & Ribeiro JF. 2003. Analysis of the floristic composition of the Brazilian Cerrado vegetation. III: comparison of the woody vegetation of 376 areas, Edinburgh Journal of Botany 60: 57-109.